Brasília (DF)- O pré-candidato ao Senado Federal pelo estado de Rondônia, Bruno Scheid (PL), mentiu nas redes sociais ao relacionar a Liga dos Camponeses Pobres (LCP) a recentes ataques à Fazenda NorBrasil, supostamente pertencente à um dos maiores grileiros de terras do Brasil, Antônio Martins dos Santos, o Galo Velho.
A LCP nega com veemência participação no evento que matou um policial civil aposentado que fazia segurança privada na Fazenda NorBrasil. De acordo com o site A Nova Democracia, a ação foi usada para “criminalizar a sagrada luta dos camponeses pobres pela terra e demonizar a LCP” e atribui o ataque ao chamado “bando do Jed”, utilizado pela polícia e pela extrema direita latifundiária em Rondônia.
A Comissão Nacional das Ligas de Camponeses Pobres (LCP) divulgou neste 16 de abril, uma declaração oficial na qual nega autoria do ataque ocorrido na noite de 14 de abril contra a sede da ex-fazenda NorBrasil, em Rondônia, episódio que terminou com a morte de um policial civil aposentado e deixou outros indivíduos feridos ou desaparecidos, segundo versões divulgadas pela imprensa local. A LCP afirma ter sido falsamente acusada por veículos que servem aos interesses do latifúndio, batizados pelos camponeses do estado de “imprensa lixo”, e sustenta que a ação foi executada por um grupo armado chefiado pelo elemento conhecido como “Jed”.

A LCP afirma que a midia rondoniense anunciou o caso na noite de 14 de abril e já no primeiro parágrafo atribuiu o ataque à organização. Em resposta, contrapõe essa versão ao histórico de conflito agrário na região: “a LCP junto com as famílias camponesas na área vizinha Tiago Campin dos Santos, resiste há mais de sete anos a todos os ataques do latifúndio que contam ilegalmente com apoio da PM-RO”.
Ao rebater diretamente a versão divulgada pela “imprensa lixo”, a organização é categórica: “Não foi a LCP” Em seguida, afirma: “A trampa para criminalizar a sagrada luta dos camponeses pobres pela terra e demonizar a LCP foi orquestrada pela extrema direita latifundiária de Rondônia, com a participação do defenestrado do comando-geral da PM, o matador de pobres coronel Braguin, ainda assim ativo nos grupos de extermínio de camponeses e pobres”.

A organização associa o episódio ao contexto das investigações recentes sobre assassinatos de camponeses em Rondônia. Segundo a LCP, “um dos objetivos foi desviar o foco das investigações em curso de seus próprios crimes”, em referência à força-tarefa da Polícia Federal e do Ministério Público Federal que, em 14 de abril, cumpriu mandados de busca e apreensão para apurar homicídios ocorridos entre 2009 e 2016. O texto menciona nominalmente Renato Nathan, Gilson, Élcio, Isaque e Edilene entre os camponeses assassinados.

A LCP afirma ainda que há um segundo objetivo por trás da imputação do ataque: “O segundo objetivo é o de lançar a culpa na LCP para encobrir outros crimes e a maracutaia entre a organização criminosa chefiada pelo coronel Braguin, grileiros latifundiários, o atual superintendente do INCRA de Rondônia, Flávio e o bando do ‘Jed’”. Em síntese, a declaração acrescenta: “Ou seja, de vítima no dia 14/04, a LCP, mais uma vez, passaria a ser ré em 15/04/2026”.
Ao tratar da autoria do ataque, a LCP aponta diretamente para o chamado “bando do Jed”: “para praticar o ataque, matar o ‘policial aposentado’ e perseguir e ferir outros e jogar a culpa na LCP, a polícia e a extrema direita se utilizaram de um grupo armado de degenerados e lumpens comandados pelo elemento que responde por ‘Jed’”. Segundo a organização, esse grupo já vinha, havia tempos, “aterrorizando os moradores, expulsando famílias de seus lotes e ameaçando de morte a todas as pessoas defensoras da LCP”.
A declaração situa o fortalecimento desse grupo no período posterior à chamada Operação “Godos”, realizada em novembro de 2025. Segundo a LCP, foi nesse momento que o bando passou a agir com mais intensidade sobre a área, aproveitando-se da repressão e da reorganização provocadas pela operação. Segundo a organização, “foi a partir da Operação ‘Godos’ que, mesmo com a polícia circulando na área, praticando toda sorte de covardias e humilhações contra as famílias camponesas e aplicando multas absurdas sob a esfarrapada desculpa ‘ambiental’, estes elementos degenerados se aproveitaram e passaram a ameaçar e intimidar as pessoas mediante armas de fogo para impedir todas as tentativas de reorganização”.
A LCP também associa ao mesmo grupo outros crimes ocorridos recentemente na região. A organização afirma que “foi esse grupo que assassinou no dia 08 de março deste ano o companheiro Dinei”, além de afirmar que “foram os do mesmo bando que, no dia 11 de abril, assassinaram o jovem Luan”, destacando ainda que famílias teriam sido expulsas e casas queimadas por não se submeterem às ordens desse agrupamento.
A LCP também fez diferenciar sua atuação da conduta do “bando do Jed”. Segundo a organização, “esses degenerados em vão tentaram ao longo dos anos se infiltrar na LCP, mas nunca houve a mínima chance de lograrem êxito, pois não cumpriam a regra de ouro, NUNCA LEVANTAR UM DEDO QUE SEJA CONTRA AS MASSAS, nem ameaçar seus poucos pertences conseguidos com suor e luta.” Mais adiante, o texto reforça: “Aliás, qualquer um honesto sabe que os acontecimentos do dia 14 de abril não poderiam ter a assinatura da LCP, posto que não haviam massas naquela ação”.
Outro ponto central é a acusação dirigida ao superintendente do Incra em Rondônia, Flávio. A LCP afirma que ele teria participado de um acordo envolvendo um grileiro latifundiário sojeiro, o “bando do Jed” e as terras da área Tiago Campin dos Santos 2. Em seguida, sustenta: “Flávio intermediou um acordo desse grupelho com um grileiro latifundiário sojeiro, muito dinheiro”. Segundo a organização, o plano consistiria em convencer parte das massas a abrir mão de seus lotes com a promessa de uma desapropriação que, de acordo com a LCP, serviria a uma negociata fundiária e ao enriquecimento de seus articuladores.
A LCP sustenta ainda que a disputa em torno da NorBrasil e da área TCS2 não pode ser separada do conflito agrário mais amplo na região. Segundo a nota, “tudo isso estaria muito bem ajustado não fosse a LCP. A tomada de todo o latifúndio grilado por Galo Velho seria para as massas, e não essa negociata porca e criminosa”. É nesse contexto que a organização relaciona o episódio à pressão sobre as famílias camponesas e à tentativa de isolar a LCP da luta pela terra na área.
Por fim, a LCP também aborda a situação jurídica das áreas TCS e TCS2. Segundo a organização, em 16 de março o juiz Áureo Virgílio Queiroz emitiu liminar de despejo, mas os advogados que fazem a defesa dos camponeses e da LCP recorreram ao Supremo Tribunal Federal. A nota afirma que a decisão resultou na “MANUTENÇÃO DA SUSPENSÃO DO DESPEJO DEFERIDA PELA MINISTRA CARMEN LÚCIA, em novembro de 2021”.
Ao final, a Comissão Nacional das Ligas de Camponeses Pobres reafirma sua posição sobre o caso e sustenta que a nova acusação não alterará a continuidade da luta na região. Entre as palavras de encerramento, a organização destaca: “MAIS UMA VEZ AS MENTIRAS CONTRA A LCP NÃO PASSARÃO” e “A LCP E AS FAMÍLIAS CAMPONESAS SEGUIRÃO A LUTA E VENCERÃO.”
Fonte A Nova Democracia
